sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Um caso para o pensamento crítico: A gafe do “boimate” (“boi com tomate”) de VEJA


Para meus estudantes de Lógica e Pensamento Critico, interessados em ver casos reais de bobagem por falta de cuidado em identificar as fontes. Reproduzido de:

O caso não é único, vejam também O “boimate” da Folha, Observatório da Imprensa, Luciano Martins Costa em 22/02/2012 na edição 682

http://www.observatoriodaimprensa.com.br/news/view/o_ldquo_boimate_rdquo_da_lt_i_gt_folha_lt_i_gt


O ano era 1983.  A Revista Veja, então com 15 anos de história, cai no conto da revista inglesa New Science, que em todo 1° de abril costumava soltar notícias absurdas sobre descobertas científicas. Naquele ano, a publicação britânica noticiou a descoberta do “fruto da carne”, derivado da fusão da carne do boi e do tomate, batizado com o sugestivo nome de “boimate”.
Para a Veja, este constituiu-se, sem dúvida, no mais sensacional ” fato científico” daquele ano e assim publicou uma reportagem na sua edição de 27 de abril. Na verdade, tratou-se da maior “barriga” (notícia inverídica) da divulgação científica brasileira.
O autor da gafe foi o diretor de redação da revista na época, Eurípedes Alcântara. Inclusive, ele se tornou uma entidade mitológica no jornalismo brasileiro. Ele ficou tão empolgado com a matéria que nem percebeu as pistas que a New Science colocou no texto. Além da idéia já inicialmente absurda, a revista disse que a descoberta havia sido feita pelo Dr. McDonald’s (referência a lanchonete) na Universidade de Hamburgo, Hamburguer em inglês.
Com o texto original nas mãos, Eurípides convocou o correspondente da Veja na Alemanha para repercutir junto a comunidade científica. Sabendo da tamanha bobagem, ele não aceitou trabalhar nesta matéria e acabou sobrando para um repórter entrevistar um engenheiro genético da USP, Ricardo Brentani. No primeiro contato do repórter, o cientista disse ser impossível tal experiência. Com a pauta nas mãos e precisando de uma boa declaração, o repórter insistiu mudando a pergunta para “Mas suponhamos que…”. O geneticista caiu e estava aí a maior barriga do jornalismo científico apoiada por alguém da USP.
Dentre os absurdos da matéria, que você pode ler na íntegra abaixo, o seguinte trecho: “a experiência dos pesquisadores alemães, porém, permite sonhar com um tomate do qual já se colha algo parecido com um filé ao molho de tomate. E abre uma nova fronteira científica”.
A descoberta do engano foi feita pelo jornal O Estado de S. Paulo que, após esperar inutilmente pelo desmentido, resolveu ” botar a boca no mundo” no dia 26 de junho.
Finalmente, com o objetivo de pôr fim ao caso que já divertia as redações, a Veja publicou, na edição de 6 de julho, ou seja, depois de dois meses, o desmentido: ” tratou-se de lastimável equívoco”. E justificou-se, explicando que é costume da imprensa inglesa fazer isso no dia 1º de abril e que, desta vez, havia cabido à revista entrar no jogo, exatamente no ” seu lado mais desconfortável”.
Na edição comemorativa de 30 anos, a Veja publicou uma pequena nota sobre o caso, leia aqui.
Confira a matéria na íntegra em um scan da revista original publicado no blog do Nassif. Detalhe especial para o lide: “Familiarizados com as delicadas estruturas da células…”



Agora destaque para o infográfico da Veja. Além do absurdo, vale a pena para ver como era feito sem o auxílio de computadores.
Aqui segue uma carta do leitor publicada na edição seguinte a do Boimate. Hilário!


MAIS:
http://veja.abril.com.br/30anos/p_114.html na ediçao VEJA coloca a a culpa nos cientistas:
“ Depois de ouvir cientistas brasileiros respeitados, VEJA publicou uma reportagem a partir de uma brincadeira de 1 de abril da revista New Scientist...”

segunda-feira, 12 de agosto de 2013



Material para  a disciplina HG404 A   -  Introdução à Lógica, Graduação em Filosofia, IFCH- UNICAMP, 2013.


  • Versao preliminar do livro  em preparação:


  "Lógica Existe Para  Todos" (W. Carnielli, J. Bueno-Soler, M. E. Coniglio)


http://tinyurl.com/logica-existe-paratodos


  • Slides sobre  "Lógica e Argumentação"

 http://tinyurl.com/lmxsrjj

Baseado no livro  "Pensamento Crítico: o poder da lógica e da argumentação"  (Walter A. Carnielli e Richard L. Epstein Editora: Rideel Edição: 2ª edição (2010) ISBN: 978-85-33914728).

 Sinopse:    Este livro estuda as técnicas de como construir um bom argumento, analisa as discussões sobre o pensamento crítico, frases vagas, afirmações morais, maus argumentos, frases ambíguas entre outras. Em especial, o livro esclarece os vínculos entre a  teoria da argumentação e a lógica  contemporânea.




domingo, 27 de janeiro de 2013

Review on "Dual Tableaux: Foundations, Methodology, Case Studies"

Review on "Dual Tableaux: Foundations, Methodology, Case Studies" (authors: Ewa Orlowska and Joanna Golinska-Pilarek), Springer, 2011 This is my recent review on the book about "dual tableaux" by Ewa Orlowska and Joanna Golinska-Pilarek (in a few words: good book, but I had some gentle criticisms on the real nature of dual tableaux and on the scope of the results: Ewa Orlowska and Joanna Golinska-Pilarek, Dual Tableaux: Foundations, Methodology, Case Studies, Springer, Series: Trends in Logic, Vol. 33, 2011, pp. xvi+523, 113 illus. ISBN: 978-94-007-0004-8 Available as 'Online First' on SpringerLink: http://www.springerlink.com/openurl.asp?genre=article&id=doi:10.1007/s11225-013-9467-6 Since Springer is charging the fortune of EURO 159,99 for the 4-pages review, I am here making freely available the draft version (almost identical to the published version): http://dl.dropbox.com/u/6465890/Reviews/Carnielli_Dual%20Tableaux-%20Foundations%2C%20Methodology%2C%20Case%20Studies.pdf

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

Como aplicar o paradigma paraconsistente com sucesso? Muitas vezes percebemos intuitivamente que uma situação (uma teoria, ou uma certa área intelectual) tem uma certa "vocação" paraconsistente, ou poderia ser melhor vista do ponto de vista paraconsistente. Mas como explicar isso, ou mesmo expressar este ideia em termos formais? No artigo a seguir, com Martin Caminada e Paul Dunne propomos três postulados necessários (mas não suficientes) para que uma abordagem possa ser repensada como paraconsistente. Isos abre as portas para uma vasta gama de aplicações do paradigma paraconsistente, que me parece algo que a comunidade pesegue há bastante tempo. Damos três exemplos ilustrativos: argumentação abstrata (com diagramas), programação lógica e lógica de default. "Semi-stable semantics" Caminada, M. W. A., Carnielli, W. A., Dunne, P. E. Journal of Logic and Computation Advance Access 10.1093/logcom/exr033 First published online: September 14, 2011 Discussion/abstract In this article, we have stated three postulates (non-interference, crash resistance and backward compatibility) that aim to capture necessary properties for the notion of paraconsistency. That is, our aim is to describe what it means for a formalism to be a paraconsistent version of another formalism. This makes it possible to meaningfully apply paraconsistency to a whole range of formalisms that are fundamentally different to classical logic, which has traditionally been the main focus of paraconsistency. To illustrate the applicability of these postulates outside of the domain of classical logic, we show how they can be satisfied with respect to three non-classical formalisms: abstract argumentation, logic programming and default logic.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Empresas para escrever artigos, escrever relatórios, demonstrar teoremas e inventar conjecturas

Fiquei estarrecido com o artigo ``Escreva bem ou pereça- Cursos e serviços ajudam pesquisadores a redigir um bom trabalho científico''
publicado em PESQUISA FAPESP, n. 162, abril de 2011, pp. 34-42.


O artigo está diponível aqui:
http://dl.dropbox.com/u/6465890/PESQUISA%20FAPESP-%20Escreva%20bem%20ou%20perecca.pdf

No artigo, a FAPESP faz uma descarada publicidade para a empresa Publicase, que tem como sócias as biólogas Marcia Triunfol Elblink e Andrea Kaufmann-Zeh, as quais foram editoras de ``Science'' e ``Nature''. ``Nature'' é publicada pela Nature Publishing Group, uma divisão da Macmillan Publishers Limited:

http://www.nature.com/nature/index.html


e ``Science'' é publicada pela HighWire Press, associada à American Association for the Advancement of Science:

http://www.nature.com/nature/index.html.

É claro que todos devemos aprender, e ensinar, como redigir bem, escolher bem as referências, colocar os resultados da melhor maneira possível,
mostrar a relevância dos resultados, etc., etc. Isso vale para artigos teses, monografias, e tudo o mais que se escreve-- inclusive é usual que se paguem revisores em língua estrangeira, ou mesmo ajuda para editar textos. Mas pagar uma empresa que escolha os tópicos da pesquisa, e que atue quase em co-autoria, me parece um absurdo tão grande comop pagar um maratonista premiado que me empurre na Maratona de Nova Iorque e querer o troféu!

Sim, porque ao ensinar, como redigir bem, escolher bem as referências, colocar os resultados da melhor maneira possível,
mostrar a relevância dos resultados, etc., o objetivo é que a futuro cientista aprenda a fazer isso sozinho!

O texto da FAPESP, na página 36, quase dá a tabela de preços do ``serviço prata'' e do ``serviço ouro'':

``Desde 2008, a Nature Publishing Group (NPG), editora que publica a revista Nature, disponibiliza um serviço de edição de papers. O NPG
Language Editing é dividido em duas categorias. No serviço ouro, o texto é retrabalhado por dois editores especialistas no assunto e revisto por outros dois profissionais. No serviço prata, há um editor a menos no processo. A NPG não faz traduções – e deixa claro que o serviço não implica compromisso de
aceitação do artigo pelas revistas da editora. Outro exemplo é a empresa norte- -americana American Journal Experts (AJE), que reúne uma rede de doutores em vários campos do conhecimento. A AJE começou a operar em 2004. ``


E continua, na p. 38:

``A Unicamp prepara reforços na estratégia de aperfeiçoar as habilidades de redação científica de pesquisadores. Nesse ano, vai oferecer
novos workshops com a Publicase e um seminário com Carl Schwarz, diretor da editora Elsevier, para atingir estudantes de pós-graduação.''

De fato a UNICAMP já fez isso em maio de 2011: foi promovido um certo ``Seminário para Autores e Revisores- Como publicar artigos em periódicos internacionais”, no Auditório DGA da UNICAMP, em 04 de maio de 2011, 10h.

Os palestrantes, cujo preço não sabemos, mas cujo custo somado em pelo menos passagens e diárias assustaria a maior dos pesquisadores que recebem no máximo R$ 4.000,00 por ano, sujeitos a atrozes burocratas, para gastar com viagens e pesquisa, foram Rose Olthof formada em matemática aplicada na Erasmus University de Rotterdam e com mestrados em Literatura Inglesa e Ciência Literária. Atualmente cursando o MBA na Rotterdam School of Management, e Carl Schwarz formado em física pela Utrecht University. Ambos trabalharam (ou talvez ainda trabalhem) para a Elsevier.

Nenhum deles com doutorado ou com carreira acadêmica-- ou seja, a UNICAMP paga a estas pessoas para ``ensinar'' seus professore, inclusive titulares , como ser revisores e como publicar artigos, ao invés de buscar nos seus quadros os cientistas que são editores e revisores internacionais há anos!

Ao invés s de melhorar as revistas que temos, os recursos da FAPEPS agora irão para melhorar o nível dos artigos das revistas da Elsevier, da Science e sa Nature, que depois serão bem indexados pela Web of Science da Thomson Learning, o que vai melhorar o desempeho das ações da Macmillan Publishers Limited Group, da HighWire Press, da Elsevier e da própria Thomson Learning na bolsa de NY!

Será que a FAPESP vai também liberar recursos para pagar gente boa para fazer aqueles procedimentos chatos de laboratório, demonstrar teoremas e propor conjecturas? E para escrever relatórios? Estou procurando sócios para a empresa PROOFCASE, e para a REPORTCASE!

sábado, 16 de abril de 2011

Cono se iniciou a lógica polivalente?

Os sistemas de lógica polivalente (ou multivalente) partem do princípio de que pode haver mais de dois valores de verdade; estes podem ser verdade, falsidade, e meia-verdade, ou mesmo diversos (finitos ou infinitos) graus de aproximação entre verdade e falsidade. Até aí, nada de espantoso; o mais interessante e difícil é de fato *construir* lógicas que operem dessa forma.

Pois bem,; dizem as mal-informadas línguas (ou copiam de quem diz) que Jan Lukasiewics teria "iniciado" o estudo das lógicas multivalentes ao tentar (com sucesso discutível) uma saída filosófica honrosa para o problema dos futuros contingentes de Aristóteles.

Fans de Charles Peirce, o "Aristóteles americano" (!!), clamam que sua lógica trivalente, anterior à de Lukasiewicz, teria sido o início do movimento multivalorado. Outros buscam tal origem em MacColl, Vasil'ev e Post, e até em Kleene.

Defendo, ao contrário, que quem de fato indicou o movimento na direçao dos valores de verdade como elementos reais, e não artifícios "ad hoc", foi Paul Bernays. No artigo

"Paul Bernays and the eve of non-standard models
in logic
"

disponível em
http://dl.dropbox.com/u/6465890/Introducao%20aa%20Logica/On%20Paul%20Bernays.pdf

argumento que Bernays olhava os valores de verdade como elementos necessários a partir de suas provas de independência dos axiomas do Principia Mathematica de Whitehead e Russell. Bernays trabalhava na direção dos geômetras, que não "inventam" retas distorcidas para tentar resolver pendengas, mas chegam a elas quase que de forma necessária a partir da noção do que chamo de "espaço lógico", ou seja, de ampliar os horizontes para evidenciar propriedades antes invisíveis, como a independência do 5. Postulado de Euclides. Detalhes no artigo, que vai sair na Anthology on Non-Classical Logics (Birkhauser).

A briga com os devotos dos santos de plantão, notadamente de Peirce e Lukasiewicz, já está lançada...

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Duas novas resenhas

Acabo de terminar duas trabalhosas resenhas, sobre dois livros bem diferentes:

2) Davide Bondoni sobre Ernst Schröder e suas "Operações do Cálculo Lógico" (

"Parafrasi Schröoderiane, ovvero Ernst Schröder- Le operazioni del Calcolo Logico" em italiano), que vai sair no Logic and Logical Philosophy,

link direto:
http://dl.dropbox.com/u/6465890/Reviews/Review%20Davide%20Bondoni.pdf

e

2) Dov M. Gabbay, Valentin Shehtman e Dmitrij Skvortsov, "Quantification in Nonclassical Logic", Elsevier, 2009, esta para oo Mathematical Reviews,


link direto:
http://dl.dropbox.com/u/6465890/Reviews/Review%20%20MR%20%20Gabbay%20et%20allia.pdf